Museu do Holocausto classifica discurso de ex-secretário nacional da cultura como ‘apologia ao Nazismo’ e ‘desrespeito às vítimas’

O Museu do Holocausto, de Curitiba, emitiu nota, nesta sexta-feira (17), sobre o discurso do ex-secretário nacional da Cultura, Roberto Alvim, quando, ainda no cargo, disse frases semelhantes às usadas por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler no governo nazista.

O museu, considerado o primeiro sobre o tema no Brasil, disse que as declarações de Alvim classificam-se como ‘apologia ao Nazismo’ e ‘desrespeito às vítimas do Holocausto’.

Alvim foi exonerado pelo presidente Jair Bolsonaro, nesta sexta-feira. O presidente disse que a permanência de Alvim no governo ficou “insustentável” e ressaltou que repudia ideologias “totalitárias e genocidas”.

A exoneração ocorreu depois que o, então secretário, afirmou em discurso que a “arte brasileira da próxima década será heroica” e “imperativa”, assim como Goebbels havia afirmado, em meados do século XX, que a “arte alemã da próxima década será heroica” e “imperativa”.

O discurso de Alvim, divulgado em uma rede social na quinta-feira (16), se referia ao lançamento de um concurso de projetos de arte.

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Na manhã desta sexta-feira, o ex-secretário afirmou, em post no Facebook, que a semelhança entre as frases foi “apenas uma frase do meu discurso na qual havia uma coincidência retórica”.

Além da afirmação, o vídeo do ex-secretário apresentou, ao fundo, uma música do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883), extraída da ópera Lohengrin. O artista escreveu ensaios nacionalistas e antissemitas, e foi tomado pelos nazistas como exemplo de superioridade musical e intelecto.

Ainda na nota, o museu ressaltou repúdio ao conteúdo do vídeo e informou que “clama” por uma apuração do caso.

Leia, na íntegra, a nota oficial emitida pelo museu:

Na noite do dia 16 para 17 de janeiro de 2020, o secretário da Cultura do Governo Federal, Roberto Alvim, publicou um vídeo de divulgação do Prêmio Nacional das Artes, o qual causou justa indignação nos mais diversos setores da sociedade.

A razão principal é que parte do pronunciamento se configura como cópia parcial de um discurso do ministro da propaganda alemão durante o regime nazista, Joseph Goebbels, conforme atestam diversas fontes historiográficas.

Em primeiro lugar, uma autoridade, qualquer que seja sua hierarquia ou país, que insere num pronunciamento oficial citações ipsis litteris de um notório criminoso nazista, se vale de sua estética, é uma afronta.

Em segundo lugar, causa perplexidade a similaridade não só de palavras, mas de conteúdo. O regime nazista visava aparelhar a produção cultural alemã aos seus objetivos políticos.

A arte deveria, aos olhos nazistas, servir para unir a nação, enaltecer o espírito patriótico e a lealdade de seus cidadãos. A produção artística que fosse crítica aos ideais nazistas, adotasse uma estética considerada contrária ao enaltecimento da nação ou que questionasse a ordem vigente foi gradualmente marginalizada, censurada e finalmente perseguida.

A produção cultural, que tem um de seus papéis fundamentais a expressão dos sentimentos, a crítica ao status quo e a possibilidade de imaginar cenários diferentes era, dessa forma, atacada em seu cerne.

Nesses termos, o secretário deixa claro que somente serão valorizadas pelo governo federal as manifestações culturais alinhadas à valores ideológicos pré-definidos.

Junto a isto, a seleção ideológica e o ataque verbal e financeiro à arte crítica e aos seus valores são um enorme acinte, um desrespeito às vítimas do Holocausto e uma ofensa a todos aqueles que, independentemente dos posicionamentos políticos, acreditam na democracia, nos direitos humanos e na liberdade e pluralidade de pensamento e expressão.

Em terceiro lugar, o uso como trilha sonora da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, exaustivamente utilizada no período nazista como exacerbação da purificação e do nacionalismo alemães, também desonra e gera repulsa àqueles que buscam aprender e transmitir as lições da Shoá.

Resumindo: este inadmissível plágio textual e estético, além de repulsivo, cruza a linha do que é moralmente aceitável e configura apologia ao Nazismo. O Museu do Holocausto de Curitiba não apenas repudia, como também clama pelo afastamento de todos os responsáveis e pela instauração de um processo penal”.

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Fonte: G1 Paraná – Norte e Noroeste

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